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Dentre infinitas abordagens e formas de viver a capoeira, temos mais diferenças que unidades nesse ambiente, o que o torna extremamente rico. Afinal, as leis ecológicas e biológicas mostram que quanto maior a biodiversidade de um determinado ecossistema, mais resistente a
extinção ele se torna. Aplicando isso na capoeira, suponho que nossa arte não tenha menor risco de acabar.
Dentre essa variedade de percepções, definições e verdades que se defendem na e pela capoeira, temos poucos pontos em comum, seja na origem, estilos, nomenclatura e objetivos. Cada grupo/mestre defende sua verdade.
Devido a dois incidentes que presenciei nesse ano de 2004, no Estado de São Paulo, resolvi colocar alguns pontos de vista em relação á cultura popular versus cultura acadêmica.
Apesar de haver diferentes formas de se ensinar a história e origem da capoeira, posso afirmar ser um consenso total que ela vem da CULTURA POPULAR. Sabemos que foi legalmente proibida, e há menos de 100 anos está sendo cooptada (ou se infiltrando, como queiram) pelo sistema.
Quando falo ‘sistema’ me referencio ao Estado de Direito atual, com suas leis e derivações, ou seja, seus mecanismos de manutenção e legitimação, como as famílias e as instituições escolares, religiosas ou sociais. Assim podemos, dessa forma, incluir as universidades (CULTURA ACADÊMICA)
como mecanismos de manutenção e legitimação do sistema; mesmo que dentro dele haja mecanismos que contradizem ou combatem esse ‘sistema’ do qual está incluído...
Outra certeza que podemos formular é que a CAPOEIRA é mais antiga que as universidades no Brasil. Não só pelo fato de que antes da capoeira ser ensinada legalmente em academias e escolas, ela era passada de mestre a discípulo na sua história marginal; bem como as universidades começam a
existir no Brasil a menos de 100 anos, e o curso de Educação Física a bem menos.
Vivemos um momento em que fracassou a tentativa de controle do meio acadêmico (sistema) sobre a capoeira, na medida em que, também juridicamente, os Conselhos de Educação Física não conseguiram impor seu desejo de permitir que só formados em Educação Física dêem aulas de capoeira.
Mas temos de cuidar com outras formas de controle, pois existe um consenso fabricado na sociedade de que a formação acadêmica em si é algo que gera um poder.
Se justifica em parte esse consenso, pois realmente a formação acadêmica gera o poder de exercer algumas funções/profissões na sociedade. Mas é importante se perceber que a formação acadêmica em si não gera um poder de saber, ou o conhecimento em si. Seja no exemplo de pessoas que
podem comprar diplomas sem passar pelos curso, seja pessoas que passam por cursos fracos e não se dedicam em buscar o conhecimento.
Tanto que em muitas áreas há a necessidade de comprovar o conhecimento em provas depois de formados, para pegar registros e exercer a profissão. Um advogado formado, por exemplo, só pode exercer a profissão se passar em provas da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).
Sem falar de outras profissões como a de Somaterapeuta, que não há a necessidade de curso superior em psicologia, para atuar na área.
O primeiro incidente foi participar do I SENECA em Campinas (maio/2004). Este Seminário Nacional de Estudos de Capoeira foi produzido por um Grupo de Estudos de Capoeira, o GECA, composto basicamente por acadêmicos capoeiristas. Na tentativa de produzir algo mais democrático que a política
atual da capoeira institucionalizada (C.B.C. e Congresso Unitário de Capoeira), houve vários pontos positivos, mas para este texto, gostaria de frisar que foi basicamente um encontro TEÓRICO. Isto é, se abriu espaço para UMA roda de capoeira. Que na prática, ficou reduzida tanto pelo
tempo (pelos atrasos da programação), como no espaço físico (priorizaram o espaço para um show).
O segundo incidente foi na roda final da Oficina de Mestre Curió (BA) produzida pelo grupo N´golo de São José dos Campos (agosto/2004). O único momento de energia negativa foi depois que o Mestre Curió pediu a um menino que calçasse um calçado para jogar na roda, então o pai deste
menino levantou a voz e dizendo não aceitar essa atitude, dizendo que a capoeira é liberdade e que os negros escravos jogavam descalços. Mestre Curió foi educado e argumento que os negros jogavam com alpargatas de pele de animais e que faz parte da organização da capoeira angola se jogar
calçado. O indivíduo saiu arrastando a família e questionando a autoridade do mestre (dizendo “quem é você?...”). Soubemos depois que o indivíduo é um dos mais respeitados professores de história de S.J.C., além de capoeirista contemporâneo (como nomeio quem diz fazer angola
& regional).
O que eu tiro desses incidentes: que mesmos as pessoas mais competentes do meio acadêmico estão longe de viver a capoeira como os mestres antigos, semianalfabetos da cultura popular.
No SENECA se buscou algo democrático, porém não gostei ao tirarem o tempo (devido a atrasos) dos que apresentariam pôsteres, (mostrando como valorizam mais a hierarquia que a democracia) mas priorizaram a TEORIA da capoeira e não sua PRÁTICA, mesmo sendo um seminário de estudos, é um
desperdício não estudar o jogo de pessoas de outros Estados e países. Pois a RODA de capoeira é melhor forma de se ensinar dos iletrados, seja na tradição da ‘oitiva’, em que antes das escolas e academias, a roda servia de ambiente de ensino; seja na minha percepção de que capoeira
é RODA, o resto é ou consequencia ou preparação...
E no evento do Mestre Curió, onde este deu uma verdadeira aula de comportamento ao mostrar que argumentos do ‘respeitado’ professor de história se invalidaram tanto na prática (forma) como na teoria (conteúdo). Isto é, alguns dizem que o indivíduo se encontrava bêbado, mas ele
aumentou o tom de voz, assustou seus próprios filhos e se retirou tentando provocar polêmica. Mestre Curió não se exaltou, quando questionado de ‘quem era’ pra pedir pra colocar o calçado no filho dele, simplesmente disse ‘não sou ninguém’ (e bem sabemos que além de ser o
renomado discípulo de mestre Pastinha, era o coordenador da roda); sem falar que argumentou todas as colocações do professor. Este ainda disse que ‘e se a criança não tivesse calçado’, sendo que disseram que o menino estava calçado até antes de entrar na roda e o m. Curió ainda
respondeu que se ele não tivesse calçado, aí sim poderia jogar descalço...
São aulas informais para quem busca a capoeira se antenar, pois a capoeira está muito mais VIVA nos mestres antigos que em qualquer outro lugar (mega-grupos, organizações do lado desportivo e universidades), reforçando o que o estudioso Frede Abreu disse em sua palestra em Campinas: “que
os mestres antigos são a nossa água-de-beber”. Camará...
02/09/04 – Sampa por Rui Takeguma, somaterapeuta criador da Somaiê (www.soma.pagina.de) & professor de capoeira angola do IÊ-SP (Http://ie.cal.vila.bol.com.br) e membro da F.A.C.A. (Http://f-a-c-a.vila.bol.com.br) e pra quem se interessa por títulos, cursei 5 anos de Arquitetura e
Urbanismo na UFPR, mas abandonei e não me formei....
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